Microplásticos chegam aos girinos da Amazônia e acendem um alerta sobre o futuro dos rios
Pesquisa inédita desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Pará identificou, pela primeira vez, a presença de microplásticos em girinos da Amazônia. O estudo amplia as evidências de que a poluição plástica já alcançou organismos essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas amazônicos.
A Amazônia costuma ser apresentada ao mundo como o maior patrimônio natural do planeta. Seus rios, florestas e a enorme diversidade de espécies simbolizam uma natureza ainda preservada. Mas uma pesquisa inédita mostra que um dos maiores problemas ambientais da atualidade já alcançou até mesmo animais que vivem nos ambientes mais sensíveis da região.
Pela primeira vez, pesquisadores identificaram a presença de microplásticos em girinos amazônicos, um resultado que amplia as evidências de que partículas provenientes da degradação de resíduos plásticos já circulam pela cadeia alimentar da floresta. O estudo foi desenvolvido por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aquática e Pesca (PPGEAP), da Universidade Federal do Pará (UFPA), e publicado na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature, uma das mais respeitadas publicações científicas do mundo.
A pesquisa analisou girinos coletados em ambientes aquáticos da Amazônia e encontrou partículas microscópicas de plástico em seus organismos. Embora invisíveis a olho nu, esses fragmentos podem interferir na alimentação, no desenvolvimento e na sobrevivência dos animais, além de servirem como veículo para substâncias químicas potencialmente tóxicas.
A descoberta é considerada relevante porque os girinos ocupam uma posição estratégica nos ecossistemas aquáticos. Eles participam do controle de algas, reciclam matéria orgânica e servem de alimento para peixes, aves, répteis e mamíferos. Qualquer alteração em sua saúde pode produzir efeitos em diferentes níveis da cadeia ecológica.
Os pesquisadores destacam que os anfíbios são reconhecidos mundialmente como importantes bioindicadores da qualidade ambiental. Por possuírem pele altamente permeável e parte do ciclo de vida diretamente ligada à água, costumam responder rapidamente às alterações do ambiente. Encontrar microplásticos nesses animais significa que a contaminação já alcançou organismos particularmente sensíveis às mudanças ambientais.
A pesquisa também reforça um aspecto que vem sendo observado em diferentes partes do planeta: a poluição por microplásticos deixou de ser um problema restrito aos oceanos. Nos últimos anos, essas partículas foram encontradas em rios, lagos, sedimentos, peixes, aves, mamíferos, no solo, na água potável e até no organismo humano. Agora, a Amazônia acrescenta mais uma peça a esse quebra-cabeça ambiental.
Embora o estudo não conclua que a presença dos microplásticos provoque impactos imediatos sobre as populações de anfíbios, os pesquisadores alertam para a necessidade de ampliar o monitoramento e aprofundar as investigações. Ainda são pouco conhecidos os efeitos da exposição contínua dessas espécies às partículas plásticas ao longo de todo o seu ciclo de vida.
O trabalho ganhou repercussão nacional e internacional. Além da publicação na Scientific Reports, foi destaque em veículos como BBC News Brasil, TV Globo, Mongabay e O Liberal, refletindo o interesse da comunidade científica por pesquisas capazes de revelar como a poluição plástica avança sobre ecossistemas considerados estratégicos para o equilíbrio climático do planeta.
Sobre a pesquisadora
A pesquisa foi conduzida pela doutoranda Fabrielle Barbosa de Araújo, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aquática e Pesca (PPGEAP) da Universidade Federal do Pará (UFPA), sob orientação do professor Dr. Tommaso Giarrizzo. O estudo integra uma linha de pesquisa voltada à investigação da contaminação por microplásticos na fauna amazônica, buscando compreender os impactos da poluição plástica sobre os ecossistemas aquáticos e gerar conhecimento que contribua para a conservação da biodiversidade da região.
