CulturaEntrevistas

Entrevista | Dayanne Farias conta como transformou o apagão do Amapá em narrativa

Em A Ilha dos Esquecidos, a designer Dayanne Farias transforma relatos de quem enfrentou o apagão de 2020 em uma história sobre memória, abandono e resistência

O apagão que atingiu o Amapá em novembro de 2020 deixou grande parte do estado sem energia elétrica, água, comunicação e acesso a produtos essenciais. A crise aconteceu durante a pandemia de Covid-19 e expôs ainda mais as dificuldades enfrentadas pela população amapaense.

A experiência vivida naquele período inspirou a designer Dayanne Farias a criar a história em quadrinhos A Ilha dos Esquecidos. A obra nasceu como um trabalho de conclusão de curso e reúne, em uma narrativa ficcional, situações vividas pela autora e relatos de outras pessoas atingidas pelo apagão.

Em entrevista ao Portal, Dayanne falou sobre os momentos mais difíceis da crise, o processo de criação da HQ e o papel da arte como instrumento de denúncia e preservação da memória.

AP: Antes da HQ, veio a experiência pessoal. Como foi viver o apagão no Amapá?

Dayanne Farias: O apagão foi um momento muito complicado para todo mundo. Na minha experiência pessoal, foi ainda mais difícil porque estávamos durante a pandemia e minha mãe trabalhava em um hospital, especificamente na área de epidemiologia. Ela estava muito exposta.

Por causa do trabalho dela, eu e minha irmã precisamos ficar em outra casa durante o período mais crítico da pandemia, porque ela não queria nos expor. Durante o apagão, os profissionais não pararam de trabalhar, mas não havia água para fazer a higienização. Foi muito tenso.

Além da falta de insumos e do desespero de não saber o que estava acontecendo, foi assustador perceber que ela estava exposta e não tinha como tomar banho ou se higienizar.

A noite em que a energia acabou também pareceu um filme de terror. Foi uma das piores tempestades que já vivi. Estávamos tentando acalmar uma criança que chorava por causa dos trovões quando a energia foi embora. Ninguém sabia o que tinha acontecido. Foi terrível.

AP: Quando vocês perceberam que não era apenas uma falta de energia comum?

Dayanne Farias: Nós já estávamos acostumados a enfrentar quedas de energia no estado, porque existe uma deficiência energética há muitos anos. Mas, dessa vez, faltou tudo e não havia nenhuma informação.

Não tínhamos sinal de telefone, água nem energia. Começamos a perceber a dimensão do problema quando pessoas de diferentes bairros contaram que também estavam sem eletricidade. Eu estava no bairro Santa Rita, minha mãe morava no Trem e amigos estavam em outras regiões. Em todos os lugares era a mesma coisa.

Foi quando percebemos que havia algo muito estranho. Passaram-se três dias e nada da energia voltar. Depois começaram a surgir as informações oficiais, mas ninguém imaginava que o problema teria a dimensão que teve.

AP: Alguma situação vivida naquele período ficou especialmente marcada em sua memória?

Dayanne Farias: Muitas situações. Acho que cada pessoa viveu um apagão diferente, dependendo da região onde estava, da composição da família e do trabalho que exercia.

Na minha experiência, o momento que não esqueço foi quando minha mãe me ligou chorando. Ela havia ido a vários supermercados e estabelecimentos, mas não conseguiu comprar uma garrafa de água.

Ela me disse: “Minha filha, eu nunca achei que na minha vida eu fosse chorar de sede”. Aquilo me marcou muito. Não era uma situação humana.

AP: Como essas experiências foram incorporadas à história em quadrinhos?

Dayanne Farias: Eu não conseguiria contar tudo porque foram muitas situações. Também tinha um tempo curto, porque a história começou como um projeto de conclusão de curso.

Decidi reunir alguns relatos que me marcaram e criar uma história fictícia baseada neles. Durante a pesquisa, encontrei notícias sobre pessoas que iam ao Rio Amazonas buscar água para beber e tomar banho.

Na HQ, a personagem principal precisa ir ao rio buscar água. Isso também estava próximo da minha realidade, porque moro perto do Rio Amazonas. Minha família não chegou a beber a água do rio, mas fomos várias vezes até lá para buscar água para outras necessidades.

AP: Quando você percebeu que aquele trauma coletivo precisava se transformar em arte?

Dayanne Farias: Na época, eu estudava em Goiânia, mas estava em Macapá por causa da pandemia. As aulas continuavam de forma remota e eu precisava explicar aos professores o que estava acontecendo no Amapá.

Quando eu contava que vivíamos um cenário praticamente apocalíptico, com pessoas desesperadas, filas em todos os lugares e falta de produtos básicos, os professores diziam que não estavam sabendo de nada.

As pessoas de fora do estado simplesmente não faziam ideia do que estava acontecendo. Eu pensava: “A gente está vivendo uma crise humanitária no estado. Se fosse em qualquer estado do Sudeste, isso estaria em todos os jornais”.

Nós tivemos menos de dois minutos no Fantástico. Quando percebi que as pessoas não estavam dando a devida importância ao que acontecia, decidi encontrar, dentro do meu curso, uma forma de denunciar aquilo.

A HQ surgiu inicialmente como uma denúncia. Era uma maneira de dizer: “Isso está acontecendo aqui com a gente, e as pessoas não estão falando sobre isso”.

AP: Como começou o processo de criação de A Ilha dos Esquecidos?

Dayanne Farias: A primeira ideia surgiu ainda no meio da faculdade. Eu cursava Design Gráfico e tive uma disciplina de histórias em quadrinhos. Como atividade, precisávamos criar uma HQ.

Naquele período, eu estava vivendo o apagão e decidi fazer, com uma colega, uma história sobre o tema. A primeira obra se chamava Duas Marias. Ela acompanhava um dia na vida de duas personagens: uma morando no Sudeste e outra no Amapá. A ideia era mostrar as diferenças entre as duas rotinas durante o apagão.

O professor gostou muito do trabalho e comecei a pensar em desenvolver o tema no projeto de conclusão de curso. Desde que fui morar em Goiânia, eu queria produzir algo que falasse sobre o Amapá, mas ainda não sabia exatamente o quê.

Quando conheci melhor a linguagem dos quadrinhos, percebi que ela era acessível e muito eficiente para traduzir temas complexos. Então decidi produzir uma HQ sobre o apagão. O professor da disciplina acabou sendo o orientador do meu TCC e acompanhou todo o processo. Foi assim que nasceu A Ilha dos Esquecidos.

AP: De onde veio o título da obra?

Dayanne Farias: Foi um processo até chegar ao nome. Durante a monografia, precisei escrever um capítulo inteiro sobre o apagão e pesquisar laudos, questões políticas, a crise humanitária e outros aspectos daquele período.

Em uma das leituras, encontrei uma comparação do Amapá com uma ilha. Aquilo fez muito sentido para mim. Pensei que estávamos esquecidos e isolados.

Mesmo que o Amapá não seja exatamente uma ilha, existe um isolamento geográfico em relação ao restante do Brasil. Isso também cria um distanciamento simbólico. Foi assim que surgiu o nome A Ilha dos Esquecidos.

AP: Qual é o papel do design e das histórias em quadrinhos na discussão de temas sociais?

Dayanne Farias: Existe uma área do design chamada design social, que trata justamente de dar visibilidade, dar voz e traduzir questões que estão à margem, muitas vezes porque não são do interesse do mercado.

As pessoas têm a impressão de que o design serve apenas para vender e produzir, mas ele também pode ser usado para denunciar e dar visibilidade a questões mais sérias e políticas.

As histórias em quadrinhos são uma ótima ferramenta porque possuem uma linguagem muito acessível. Elas usam diferentes instrumentos para informar, como texto, imagem e ilustração.

Há cada vez mais HQs abordando assuntos sérios, figuras políticas, conflitos e questões sociais. Acredito que essa também seja uma função da arte: ser um canal de comunicação.

AP: Foi difícil revisitar o apagão durante a pesquisa e a produção da obra?

Dayanne Farias: O processo inteiro do TCC foi muito difícil. Na época, ainda não havia muita produção científica sobre o apagão. Encontrei uma coletânea de artigos produzida por uma turma de mestrado da Universidade Federal do Amapá, mas grande parte do material disponível era formada por notícias, podcasts e entrevistas.

Foi muito difícil acompanhar os relatos de pessoas desesperadas e de trabalhadores que perderam tudo. Havia donos de açougues que perderam toda a mercadoria e não sabiam como se recuperar. Feirantes perderam peixes e outros produtos. Muitas famílias perderam tudo o que estava na geladeira e não tinham dinheiro para comprar novamente.

Várias vezes precisei parar de escrever porque começava a chorar. Comecei a produção em 2022, dois anos depois do apagão, e ainda assim era uma ferida muito aberta.

Não tem como revisitar o que as pessoas passaram sem ficar indignado. É difícil aceitar que o poder público tenha permitido que a situação chegasse àquele ponto e que nós não tenhamos recebido a visibilidade necessária.

AP: Como o público pode adquirir A Ilha dos Esquecidos?

Dayanne Farias: A HQ demorou dois anos para começar a ser comercializada. Durante o TCC, precisei produzir tudo com muita pressa e o resultado ainda não estava exatamente como eu queria. Passei os dois anos seguintes trabalhando nas ilustrações e em outros detalhes.

A primeira comercialização aconteceu durante a Semana do Quadrinho. Agora, os exemplares são produzidos por encomenda. É uma produção completamente independente.

Há um formulário disponível no link da minha bio no Instagram. A pessoa preenche os dados, escolhe a quantidade de exemplares e envia o comprovante. Depois, encaminho o pedido para a gráfica e faço a entrega ou disponibilizo para retirada.

AP: Que mensagem você deixa para quem deseja conhecer o seu trabalho?

Dayanne Farias: Gostaria de convidar as pessoas a conhecerem e adquirirem A Ilha dos Esquecidos. É muito importante apoiar os artistas independentes do Amapá. Temos muitos artistas sensacionais no estado, mas ainda gastamos muito com produções de fora e deixamos de valorizar o que é feito aqui.

Essa é uma história que nasceu de muito trabalho e é muito importante para mim. Também pretendo dar continuidade ao projeto. A primeira HQ acompanha especificamente uma personagem, mas quero contar outros relatos, criando novas narrativas ficcionais baseadas no que aconteceu durante o apagão.

A obra está disponível por meio do link na bio do meu Instagram, no perfil @adayfaria.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo